Normalmente a coléra espiritual ataca ás sete da manhã, daquele pobre desgraçado filho do lírico e invisível Deus. O pecador, com rosto pacífico e ameno, ciente dos fatos a seguir, estava perante um precipício da cor vermelha mas que era preto aos olhos deste.
Alguns pássaros voavam naquela manhã, com as asas da liberdade sobrevoando o pecador. Apaixonado por aves, ele ficou atormentado com os sons celestes dessas criaturinhas livres, fixando o olho em todas as acrobacias deles - última e aflita vez que os viria. Algumas dezenas de gotas de lágrimas percorriam o trajeto facial em direção à boca, no qual ele entreabria para sentir o gosto salino do próprio líquido. Neste momento deu um sorriso ingrato e cerrado, como se houvesse raiva entre ele e o próprio corpo - algo como a Última Ceia dos condenados à morte.
O pecador era um homem alto, musculoso, com as mãos trincadas e fissuradas de árduos trabalhos. O peitoral se inclinava do corpo, como se o orgulho fosse a última coisa que tinha... O rosto era magro, face profunda e cinzenta. O rosto quadrado projetava sua vida rígida e sem dúvidas. Os olhos pequenos e cerrados, como se não sentisse nada para com a vida. O nariz fidalgo, nobre e orgulhoso. A boca, rasgada, como se a ironia e o acaso nascesse com ele. Cabelos curtos, negros e geométricos - linhas retas em direção ao abismo. Vestia algo como uma camisola preta, com capuz - decerto a roupa dos hereges de anos há fio.
Recolheu do solo uma pedra pequenina, opaca e marrom; jogou-a no abismo, para verificar a profundidade. "Ótimo", pensou; o plano não falharia.
Deu-se um suspirada tão profunda e caótica como sua mente estava naquele momento: " Chegou, enfim, minha glória, meu momento". O vento lhe batia forte no rosto, e ele fechava os olhos para sentir aquela sensação indizível de frescor e amor. Sorria, única vez de sua desgraçada vida, com prazer e paz.
Nobre de um homem que controla a própria vida e a morte! Não há acaso, senão o nascimento. Prontidão, exatidão, sarcasmo e lirismo - estas são as últimas palavras que o pensamento poderia supor.
Como numa sentença de morte, os últimos pensamentos são apenas sensações e pragas que passou - só e apenas. Abriu-se os braços, e ouviu a platéia invisível bater palmas! Gritos de glória, de felicidade, de prazer, logo! Orquestra celeste tocando o som branco da morte!
De repente, como essa manhã, apareceu-lhe o garoto que havia molestado há alguns dias. Menino cristão e com o coração cheio de perdão e ressentimento - havia ele, pois, apaixonado pelo pecador?
Correu o menino e perguntou ao pecador, numa fala aflita e irritada: " Queres morrer ou estarei eu vislumbrando sonhos de morte? ". O pecador ouviu, sorriu e ironicamente respondeu:
" Meu caro, não quero morrer... viverei eu a partir de agora, como um pássaro".
Após isso, pulou e afundou-se no abismo ainda sorrindo com a glória que um dia achou que possuía.

5 comentários:
Olá Anna Clara! Estes textos são seus?
São realmente muito bons. Ótima construção!
vou passar a seguir seu blog...
Agradou-me!
Estava eu voando pelo campo esses dias, coisa de fim de tarde, quando sobre um nimbo, exageradamente denso para a época, encontro um sujeito grave, de linhas geométricas, repousando como se até cansado estivesse:
- Venta um pouco hoje..., eu disse.
- Vem um tufão.
- Absurdo. - repliquei - Não há tufões em Minas, nem em qualquer canto deste lado do mundo.
- É, não há. Mas vem um tufão. Este mundo não tem cantos, é uma bola.
Saí e continuei a voar, pensando como alguém fala sem nem mexer a boca.
Essa liberdade de um sucumbir a beira de um abismo é mais um triunfo do que flagelo. Lembrou-me Ismália de A. de Guimarães. Belissimo, menina Anna.
Oi, meu nome é Guimarães Lobo, conheci/vi você através do face, em conta de amiga; vi que tinha um blog e vim ler. gostei.
Tenho uma coluna no Paginacultural.com (um site de cultura aqui de uberlândia; estava pensando se vc não quereria postar lá, fazer parte do casting de colaboradores (não ganhamos nada, mas somos valorizados pelo sítio)
Se quiser, posso indicar você.
Lobo.
guimaraes_lobo@hotmail.com
Continue a escrever!
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