sexta-feira, 9 de julho de 2010

... morte para meus ouvidos.

De repente, uma manhã estranha e sombria. De nada parecia com estranha, nem sombria; deveras caloroso o vento com partículas irradiantes de morte em estado gasoso; o sol brilhando tamanha sua própria proporção; e o verde terrestre, meio cinzento, colorindo os pés daquele homem, que um dia nada teve de sonhos - emaranhado de serpentes do passado, presente e futuro: três mosqueteiros em prol do adoecimento da alma.
Normalmente a coléra espiritual ataca ás sete da manhã, daquele pobre desgraçado filho do lírico e invisível Deus. O pecador, com rosto pacífico e ameno, ciente dos fatos a seguir, estava perante um precipício da cor vermelha mas que era preto aos olhos deste.
Alguns pássaros voavam naquela manhã, com as asas da liberdade sobrevoando o pecador. Apaixonado por aves, ele ficou atormentado com os sons celestes dessas criaturinhas livres, fixando o olho em todas as acrobacias deles - última e aflita vez que os viria. Algumas dezenas de gotas de lágrimas percorriam o trajeto facial em direção à boca, no qual ele entreabria para sentir o gosto salino do próprio líquido. Neste momento deu um sorriso ingrato e cerrado, como se houvesse raiva entre ele e o próprio corpo - algo como a Última Ceia dos condenados à morte.
O pecador era um homem alto, musculoso, com as mãos trincadas e fissuradas de árduos trabalhos. O peitoral se inclinava do corpo, como se o orgulho fosse a última coisa que tinha... O rosto era magro, face profunda e cinzenta. O rosto quadrado projetava sua vida rígida e sem dúvidas. Os olhos pequenos e cerrados, como se não sentisse nada para com a vida. O nariz fidalgo, nobre e orgulhoso. A boca, rasgada, como se a ironia e o acaso nascesse com ele. Cabelos curtos, negros e geométricos - linhas retas em direção ao abismo. Vestia algo como uma camisola preta, com capuz - decerto a roupa dos hereges de anos há fio.
Recolheu do solo uma pedra pequenina, opaca e marrom; jogou-a no abismo, para verificar a profundidade. "Ótimo", pensou; o plano não falharia.
Deu-se um suspirada tão profunda e caótica como sua mente estava naquele momento: " Chegou, enfim, minha glória, meu momento". O vento lhe batia forte no rosto, e ele fechava os olhos para sentir aquela sensação indizível de frescor e amor. Sorria, única vez de sua desgraçada vida, com prazer e paz.
Nobre de um homem que controla a própria vida e a morte! Não há acaso, senão o nascimento. Prontidão, exatidão, sarcasmo e lirismo - estas são as últimas palavras que o pensamento poderia supor.
Como numa sentença de morte, os últimos pensamentos são apenas sensações e pragas que passou - só e apenas. Abriu-se os braços, e ouviu a platéia invisível bater palmas! Gritos de glória, de felicidade, de prazer, logo! Orquestra celeste tocando o som branco da morte!
De repente, como essa manhã, apareceu-lhe o garoto que havia molestado há alguns dias. Menino cristão e com o coração cheio de perdão e ressentimento - havia ele, pois, apaixonado pelo pecador?
Correu o menino e perguntou ao pecador, numa fala aflita e irritada: " Queres morrer ou estarei eu vislumbrando sonhos de morte? ". O pecador ouviu, sorriu e ironicamente respondeu:
" Meu caro, não quero morrer... viverei eu a partir de agora, como um pássaro".
Após isso, pulou e afundou-se no abismo ainda sorrindo com a glória que um dia achou que possuía.

5 comentários:

LaRa disse...

Olá Anna Clara! Estes textos são seus?
São realmente muito bons. Ótima construção!
vou passar a seguir seu blog...
Agradou-me!

Dekduedro disse...

Estava eu voando pelo campo esses dias, coisa de fim de tarde, quando sobre um nimbo, exageradamente denso para a época, encontro um sujeito grave, de linhas geométricas, repousando como se até cansado estivesse:

- Venta um pouco hoje..., eu disse.

- Vem um tufão.

- Absurdo. - repliquei - Não há tufões em Minas, nem em qualquer canto deste lado do mundo.

- É, não há. Mas vem um tufão. Este mundo não tem cantos, é uma bola.

Saí e continuei a voar, pensando como alguém fala sem nem mexer a boca.

Lisa Alves disse...

Essa liberdade de um sucumbir a beira de um abismo é mais um triunfo do que flagelo. Lembrou-me Ismália de A. de Guimarães. Belissimo, menina Anna.

Lobo Guimarães disse...

Oi, meu nome é Guimarães Lobo, conheci/vi você através do face, em conta de amiga; vi que tinha um blog e vim ler. gostei.
Tenho uma coluna no Paginacultural.com (um site de cultura aqui de uberlândia; estava pensando se vc não quereria postar lá, fazer parte do casting de colaboradores (não ganhamos nada, mas somos valorizados pelo sítio)
Se quiser, posso indicar você.
Lobo.
guimaraes_lobo@hotmail.com

zafae disse...

Continue a escrever!

Quem sou eu

Minha foto
Uberlandia, MG, Brazil
Uma qualquer, com sentimentos quaisquer, com singularidades quaisquer, com paixões quaisquer, com raivas quaisquer, com contos quaisquer, com problemas quaisquer, com delicadezas quaisquer, com olhares quaisquer... sou o "qualquer". Qual quer?

Sites que frequento.

  • www.nietzscheana.com.ar
  • www.contos-web.com.br
  • www.resenha.com.br
  • www.roteirosonline.com.br
  • www.roteirodecinema.com.br

Arquivo do blog