Do toque soberbo que alimenta minhas clemências internas: o cheiro.
O invisível ser que envolta de mim corrompe toda a moral e toda ética existente em quaisqueres universos. Aquele que exala erotismo e amarra meus vícios.
Impenetrável caverna ambulante; de esgotos e seres provindos da angústia póstuma de uma alma viva. Caverna obscura de monstros que babam em nome da amizade. Monstros que bebem a água benta podre que deixaram no cálice há anos por desgosto.
Enigmáticos sons que explodem em loucos gritos na noite, outrora quente e aconchegante. Os dedos são poucos para fechar todos os poros que choram no rosto cheio de rugas de desespero.
Olhos vidrados na morte que se espera, na parede que chega cada vez mais perto e nem o cheiro da dor faz cócegas nesta palma da mão cheia de calos, não de trabalho, mas de arranhar os cantos do mundo querendo saída.
Unhas vermelhas gastas de tanta luta contra a própria pele, de tanto mastigá-la, rasgá-la, penetrá-la, e no fim das contas, matá-la. A pele que nunca foi esquecida, apenas crucificada. Amplo emblema da guerra, desta guerra invisível infinita, infinita até o próximo cigarro.
O peito agora está descamando, corroído pelas lágrimas ácidas de uma alma que se perdeu no caminho de volta ao coração. Não há saída, havia uma entrada, que agora está soldada por estas mesmas gotas de suicídio - trancada, ninguém entra e ninguém sai.
Espasmos histéricos de uma mente que é incapaz de ver soluções, de ver primaveras e muito menos verões. A janela se fechou, o ventou parou e a vela incendiou todo o compartimento de sobrevivência.
Difícil respirar, difícil ressuscitar, e é tão fácil entregar. A morte não está próxima, ela já vive dentro dos olhos.
Passos largos, trombando com milhões de humanos, sem nenhum perceber o que ela queria proclamar. Olhando no olho e vendo o poço, a desgraça, o túmulo. Túmulo vivo de memórias presentes. Ela é, sempre foi e sempre será uma pequenina borboleta enterrada na lama de seus próprios pensamentos.
O cheiro é demasiadamente irritante, repugnante e visível. Denso como sua lava mental. O nada entrou pelos poros e alojou-se.
Ela agora é o lar do nada, o parasita que não deixa dores nem rastros nem nada.
E ela morre, aos poucos, embora com instantes rápidos, no seu próprio chão gelado. Nada ocorre, nada se move, nada grita. Enterrada viva na sua própria existência.
Ela se chamava obsessão.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Quem sou eu
- Anna Clara
- Uberlandia, MG, Brazil
- Uma qualquer, com sentimentos quaisquer, com singularidades quaisquer, com paixões quaisquer, com raivas quaisquer, com contos quaisquer, com problemas quaisquer, com delicadezas quaisquer, com olhares quaisquer... sou o "qualquer". Qual quer?
0 comentários:
Postar um comentário