domingo, 7 de setembro de 2008

Minha paixão pelo Presente, Araras, Mitos e Brasil.




"Origem dos índios Arara - "... Para eles, quando essa vida ainda não havia começado, existiam somente o céu e a água. Separando-os, uma pequena casca que recobria o céu e servia de assoalho a seus habitantes. Na casca do céu a vida era plena, pois havia de tudo para todos. A boa humanidade, protegida pela divindade Akuanduba, vivia conforme as coisas básicas da vida: acordar, comer, beber, namorar, dormir. Se alguém cometesse algum excesso, contrariando as normas, a divindade fazia soar uma pequena flauta, chamando a atenção de todos para que se comportassem de acordo com a boa ordem. Fora da casca do céu, existiam coisas ruins, seres atrozes e espíritos maléficos, contra os quais a boa humanidade estava protegida por Akuanduba. Houve um dia, no entanto, que ocorreu uma grande briga da qual participou muita gente. A divindade fez soar a flauta, mas a multidão teimosa não quis parar de brigar. Nessa confusão, a casca do céu se rompeu, lançando tudo e todos para longe, para dentro da água que envolvia a casca. Com a queda, todos perderam e todos os velhos e crianças morreram, restando apenas uns poucos homens e mulheres. Dos sobreviventes, alguns foram levados de volta ao céu por pássaros amazônicos, onde se transformaram em estrelas. Os que ficaram, foram abandonados pelos pássaros nos pedaços da casca do céu que caíram sobre as águas. Assim, surgiram os Araras que, para se manter afastados das águas, escolheram ocupar o interior da floresta. Até hoje, os Arara, habitantes do vale dos rios Iriri-Xingu, no Estado do Pará, assobiam chamando as araras quando as vêem voando em bandos por sobre a floresta. Quando pousam no alto das árvores, as araras, por sua vez, observam os índios e, ao notarem o quanto eles cresceram, desistem de levá-los de volta ao céu. Aqui já foram deixados outras vezes e aqui deverão permanecer. Os Arara, que antes viviam como estrelas, estão agora condenados a viver como gente, tendo que perseguir o alimento de cada dia em meio aos perigos que existem sobre o chão." (Ieipari - Sacrifício e Vida Social Entre Os Índios Arara, Márnio Teixeira Pinto, Ed. UFPR, 1997) "


7 de setembro de 2008.

Querido Futuro,

Sinto lhe informar futuro, mas a independência está morta hoje. Não é mais relevante possuir a independência -sim, a independência é possuída. A moda agora é ser dependente e ser pseudoindependente.
Futuro, seja rápido, querido. O Presente mandou te dizer que não há muitas esperanças. Ele está doente e preocupado. Temo pela sua saúde.
Nunca revele ao Presente o quanto eu o amo. Futuro, aquela noite em que te revelei meus segredos foi um momento muito religioso da minha parte. Descobri que o Presente é a paixão da minha vida. Ele é tão lindo, hipnótico, espumado, mentiroso, verdadeiro, caótico... eu não vivo mais sem ele. Lembra que entrei em desespero quando me apaixonei pelo Presente? Mas depois fui pensar na relevância da independência. Hoje, o Brasil está fazendo festa aqui fora. Nada diferente, Futuro, as árvores estão com os mesmos balanços, os pássaros cantam... que delícia essa manhã de independência. A independência tem cor de primavera? O Brasil é tão tropical, acho que é por isso que enfrentam cada coisa com um sorriso verde nos lábios. Não é uma graça?
Olha, Futuro, eu observo que o céu está azul como sempre. Tudo está a mesma coisa. Mas, a sensação de êxtase de pensar que hoje é dia da indenpendência me deixa drogada de torpor. Olha, Futuro, o Presente me ensinou em uma noite de amores que quando eu acordasse eu tinha que fazer uma reflexão sobre a cor do céu. Exatamente quando eu acordasse eu devia olhar o céu. Percebi que é sempre azul, Futuro, como o sorriso das crianças aqui. Mas meu ego fica refletindo luzes mais escuras para o céu, perdendo sua totalidade da cor. O Presenté é sábio. Futuro, essa dinâmica me trás o único céu todos os dias. O Passado anda querendo fazer amor comigo. Mas ele continua com muitas teias, assim como a dependência. Ele disse que tenho uma necrose na alma que não vai se curar. O Presente olhou para ele e deu um sorrisinho e me beijou. O beijo dele tem sabor de algo doce, mas algo que nunca experimentei. Fiquei degustando seus beijos por tempos ( sem duração, como sempre parece) e sempre é inédito cada sensação.
O Presente nunca brigou com ele. Mas o Presente me defende do Passado, ele é um pouco cruel às vezes. Você me entende, Futuro? Você está cansado das minhas cartas? Se estiver eu não vou estar nem aí, pra mim você não existe mesmo. Quanto tempo vai começar pra você existir? Não sei. Por isso vou lhe entregando essas cartas sem nenhuma cobrança de resposta. Aliás, a cobrança é relevante hoje. A cobrança não está morta. Vi ela outro dia passeando na rua, hoje ela tá tão magra que tive que injetar glicose pra ver se eu a acordava - ou matava, morro de preguiça dela.
Estamos rodeados por fumaças de independência. O que acontece com fumaças? Voam, voam, com suas partículas enraizadas no ar. A dependência fica aqui do meu lado, enchendo minha paciência e expelindo miniaturas de independência. Eu já cansei de mandá-la tomar um banho quente de bosta diarréica, mas ela fica aqui soltando fumaça. O problema é que ela vira a cara quando solta. Eu já disse que eu gosto! Meus olhos ardem no começo, ficam lubrificados e enxergam melhor. A dependência está vomitando independência. Mas acontece é que ela comeu independências demais, agora fica aqui do meu lado defecando, urinando e vomitando.
Futuro, encontramos o equilíbrio? A frenesi acabou? O mundo ficou estático?
Passado, você tá de parabéns. Estamos interdependentes hoje, ou melhor-dependentes.
Presente, eu te amo tanto; converse com os robôs, hão de lhe amar como eu. Brasil, amo você com devoção. Só não acendo uma vela pois não acredito em santos, mas é exatamente por isso que te amo tanto. Perfeição me dá alergia. Sabe, Passado? Acho que já sentiu... umas bolinhas vermelhas que irritam e voltam de tempos em tempos? O que me dá mais alergia ainda é essa inércia psicológica... essa aí cria feridas homéricas em mim.
Futuro, o Presente é um ótimo amante. Como eu já lhe disse, ele é meio excêntrico (quem sai do centro e sempre vive em busca dele, me apaixona), meio neurótico. Mas até nisso ele é belo. Ele some às vezes, mas eu o entendo. Só que estou apaixonada, Futuro. O Presente mudou minha vida.
Já ía me esquecendo ( minha cabeça anda péssima, Futuro), diga ao Passado que encontrar-me-ei com ele às margens do rio Ipiranga e susurrarei com ternura aos ouvidos: " Independência ou vida. "

Quem sou eu

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Anna Clara Rios Moço.
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