segunda-feira, 3 de março de 2008

A rainha da melancolia


Decidi não matá-los. Estou voltando para minha casa, como não deixo nada salvo nesse computador, vou deixar aqui. Eis o que saiu do lixo:


"A fragilidade do ser em geral é uma constante magnífica e indecifrável.Mesquita estava com problemas com o seu mundo peculiar e nada sensato, não conseguia nem abrir a janela em uma manhã ensolarada, salvo as vezes que chovia, e a nebulosidade a agradava por lembrar do seu caos interior, e por algum simples motivo aquela chuva lhe agradava.

Mesquita era bela, tinha a pela branca , maçãs do rosto rosadas e cabelo ruivo. Um olhar meio mortífero e meio cinzento. Ela dominava esse olhar, sabia usufruir dos famosos portais da alma. Seu mundo era o seu quarto, seus livros dramáticos, onde nem sempre tudo dava certo, mas ela tinha um prazer grandioso em ler, para muitas vezes, tentam achar alguma resposta que os escritores divinos tentavam ajudar. Tinha uma paixão pelo ballet,virava noites sonhando com uma dança no Ballet Comique de la Reine , onde pra ela era mais luxuoso ter participado do ponto de partida de um Era dançante. Colocava um espartilho rosa, uma saia , sua sapatilha, amarrava com cuidado seu cabelo de fogo, com um coque levado a perfeição.Começa assim, uma euforia de um verdadeiro espetáculo! No seu quarto ela corre pra lá, corre pra cá, respira, chora...antecedendo seu imaginário e delicioso show. Se olha no espelho e fica sorrindo tímida imaginando a maestria do sucesso.

As cortinas vão se abrir para A Bela Adormecida.Ela se imaginava essa bela adormecida de uma vida inteira. Interpretaria a Princesa Aurora, cortejada por vários rapazes. O ápice da felicidade de Mequita era esse momento, onde ela poderia sentir-se importante, e não mais um verme triste de um mundo obcecado pela perfeição.

Com cuidado, Mesquita afasta todos os objetos do quarto.Ela queria fazer a cena do casamento. Um tapete vermelho cobria o pequeno espaço, um baú com lençois dourados seria onde Aurora seria cortejada, mesmo sabendo que a feiticeira iria acabar com seu espetáculo.Mesquita deu um suspiro e sentou no baú com um ar de profunda tristeza:“ Eu não posso bancar a idiota de tal forma, não há nada aqui!Não há charme, não há espectadores, não há juízes, não há inimigos, não há um amante, e muito menos rapazes querendo me cortejar. Minha imaginação é tão vil assim?Tenho que acreditar que isso me fará sentir melhor?Sou tão lúcida, e às vezes de uma insanidade imcomparável.Meu mundo não me absorve como antes, cairei na minha realidade”.Arrancou sua roupa e ficou pensando no seu desgraçado joelho, que a fizera largar o balé profissional."
E depois a continuação.

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Anna Clara Rios Moço.
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