domingo, 21 de setembro de 2008

No olhar nada se cria, tudo se transforma.



" Macbeth - Isso jamais acontecerá. Quem pode recrutar a mata, ordenar às árvores que desprendam suas raízes fixas no solo? Doces profecias, que bom! Tu, morto revoltado, não te levantes até que o Bosque de Birnan tenha se levantado, e o nosso Macbeth, na mais alta posição, viverá o que arrendou a Natureza, soltará seu último suspiro em seu devido tempo e de acordo com os hábitos dos mortais. Ainda assim, meu coração dispara, ansioso por saber uma coisa. Digam-me, se vossa Arte pode tanto assim: o descendente de Banquo chegará algum dia a comandar este Reinado?
Todas as bruxas - Não queira saber mais do que já sabe. "
Macbeth, Shakespeare W. Quarto ato, cena I. Uma caverna na zona do pântano. No centro, um caldeirão fervendo.


O medo e a pseudoverdade entendida como verdade.

Ela era uma bruxa. Sim, uma bruxa. As bruxas eram temidas e queimadas. Usavam vermelho em defesa da bandeira oposta do sentido desta cor para nobreza: riqueza.
Demorou muito tempo até ela virar uma bruxa: frações de segundos; frações de eternidade.
Ela era rosa cor de bebê, parecendo um porquinho que acabou de sair da placenta da mãe-porca.
Ela era meiga como uma criança de 3 anos pronta pra ir à uma festa com a mãe.
Sua essência, a mente, era toda branca. Vazia? Não: enraizada à fundo sem conseguir distigüir quais cores formavam o branco - todas. Porém, a membrana era vermelha - vermelho sangue; puro sangue humano. Na verdade, era uma pseudomembrana, pois esta estava tão abaixo do branco que realmente não aparecia; era rosada, como sua cara de porquinha.
Interessante foi o dia do colapso das cores... enegrecendo tudo e depois ficando colorido.
Se tornar bruxa não é fácil, destemidos amigos de cadeia. Se tornar bruxa não requer exatamente nada... por isso é tão, mas tão difícil. A Porquinha conseguiu! Parabéns pra ela e ruim para nós, mortais - pseudomortais.
A Porquinha tinha medo de virar bruxa, morria de medo - pseudomedo. Do lado oposto, queria viver como a Porca-mãe - pseudoverdade. Quando ela se tornou puro sangue - bruxa - ela teve medo. Enfim! O medo! Que delícia. Medo de quê? De exatamente nada - o nada da tanto medo que o evitamos - tadinho!


Evitar... " Isso aqui vai me dar um infarto! Olha o tanto de gordura! "
Dúvida... " Da onde você você tirou isso? "
Verdade... " Seu burro! A gente aprende isso na escola!"
Medo... " Me esqueci! "
Pseudomedo... " Mas dá uma vontade de dar uma bicada aí! "
Pseudoverdade... " Todo dia alguém morre disso. "
Nada... ( ela tirou uma parte da gordura e comeu a carne )


Porquinha estava linda naquele dia! Toda chique com seu rostinho de blush rosado na sua cara rosada-de-porco. Toda rosa, da testa ào queixo... rosinha, rosinha. Parecia um patê de salsicha.
E os cabelos? Ah, o cabelo! Tão brilhante que fedia à perfume de condicionador que ela usara à 20 minutos atrás.
A unha era rosa também - ela era fina.
A roupa era engomada e sapato ilustrado com flores primaveris.
E o ego? Ambaquista desde que estava no lençol rosa do berço: amava ser o que não era.
Sozinha - tadinha - com os amigos. Somos únicos no que quesito solidão - concorda, Porquinha? Espero que sim, e há de concordar.
A multidão se fundiu! As pessoas entraram nelas mesmas naquela plataforma esperando o trem!


" Me conte quando as ovelhas pararem de gritar, Clarice. "


Barulho! Vozes! Detalhes! Mulher! Homem! Criança ! Barulho, barulho, barulho!
Estava se aproximando um doidinho. Um " doidinho " de " rua " que temos medo. Aquele que nasceu de pai e de mãe e que é pessoa. Aquele que não nasceu doido - divagações incoerentes.
Todos corriam... todos correm. Todos menos a Porca. A Porca paralisou. A Porca tomou um susto tão grande que ficou parada, sem expressão - sem nada. O que aconteceu naquele momento? Não sei, se eu soubesse não tava fofocando aqui. Só sei que ela mudou tão completamente que em vez de pálida, em resposta ao susto, ficou vermelha. Essa vermelhidão nunca passou. Parece que ela sentiu vergonha dela mesma e dele, do "doidinho" da "rua".
Naquele milésimo de momento, se amaram. Não se tocaram, não fizeram nada, tiveram medo. Ele teve medo dela e ela dele. Ele teve medo porque ela não correu, como todos fazem. Ela teve medo de nada, pois havia tudo parado. Ela estava naquele delicioso momento de não saber o que fazer - saber ela tinha, ela não tinha conhecimento do que fazer.
Ele era feio, ela era linda... mas agora era vermelha.
Ela viu a tristeza nos olhos dele, e ele viu que ela viu. Quem disse isso? Os olhares. Os olhares são chefões da máfia do corpo humano. Todos obedecem ao Olhar. Ele é sempre destemido - sempre.
A Porca obedeceu ao seu chefe: chorou. A Porca não queria mudar, mas naquele momento foi precioso. Naquele momento ela não sentiu nada, só sentiu medo. Ela sentiu uma dor, uma dor ótima, aquela dor de uma brisa gélida com nosso corpo quente.
A Porca viu nos olhos daquele ser, uma ternura intensa. Uma tristeza; uma tristeza típica dela. Mas ele tinha a diferença: ele se entregou, ele estava no equilíbrio da existência. A Porca não. A Porca era um casulo, um casulo bem rígido. Nesse momento demorado da divisão do momento, o casulo se abriu. Não saiu uma borboleta, saiu uma bruxa. Uma bruxa tão linda que irradiou raios de compreensão aos olhos do "doidinho" da rua. Irradiou uma sensação vermelha e cinza. A sutileza do cinza com a paixão e revolução do vermelho. Irradiou, e irradiou de dentro pra fora. Depois de fora pra dentro: osmose de cores, sem energia, sem forças: natural.
A Porca agora amou a si como se amasse aquela personalidade de Porca. A diferença é que ela era uma pseudoverdade - pseudoporca. Ela virou uma porca agora. Suja, imunda, linda, persona do caos, persona da vida: distorcendo Anaïs Nin, encontrou o delta da vida. Dançou tango com ela mesma e com os olhos do "doidinho".
Linda, linda.


" Uma mulher tem que ter uma coisa de triste, uma coisa que sente saudade, uma coisa que chora, uma coisa que brilha. "

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