Amor cortês – relatos de uma criança
Estórias têm começo e fim. Quem as conta é real e digno de alguma ousadia; ousadia de fantasiar.
Saberás sobre meu amor quando, sem motivo existente, olhar uma criança e sorrir com o sorriso dela. Sentirás um riso infinito e pensarás em mim; entenderás minha mediocridade diante da vida.
O começo é tão genial, mas tão genial que passa despercebido. Todo o começo, de qualquer coisa. Início, confronto e final: tudo é dividido nisso, sem exceção... nunca será, porém, verdade absoluta, posto que, é muito superficial dividir tudo em três fases. O mecanismo pra tudo é o mesmo, estas três fases. Uma vez que estas são subdivididas em fases menores, mas não menos importantes, que o produto não altera o resultado: começo de outra seqüência.
O começo de tudo é intrigante, vital, inesperado, fugaz, triste, gostoso... inúmeros adjetivos. Por quê não todos os adjetivos e alguns inexistentes? - em todas as línguas, pois.
Pensarás comigo, tudo inesperado é conseqüência de um fato novo, desconhecido. Na infância isto é mais acentuado: além de tudo ser inesperado, tudo é verdadeiro, não existe antepassados ou fatos anteriores. Por isso que a psiquê é obra-prima do começo da vida. São as crianças que representam minha concepção de liberdade/libertário: rir-se comigo e contigo, achando novo, inesperado e sem antepassados mentais: rio com seu sorriso majestoso – a beleza nunca me foi tão nova quanto a luminosidade da aura de sua boca.
Apaixonei platonicamente. Uma espécia de Amor cortês. Vejo-te como um vasto mar azul em vez de enxergar-te como mero e medíocre ser humano: és o que és e apaixonei-me pelo teu silêncio, amando tudo o que supostamente te dói. O que te dói, Príncipe? Eu não sei sobre o que te dói, só sei que um ser humano em sua essência tem dores. Dores estas que podem lhe tirar o sorriso, o começo, as cores, a ingenuidade de ver, a inocência de sentir o inesperado. Me causa dor platônica pensar que pode ser tirado a virtude estética e mental do seu ser: o sorriso. Isso poderá te doer, e eu amo tudo que te dói.
Por vezes caio na contradição de não querer ver você fora da minha restrita lista de amores e querer você fora da mesma. Amo tudo que te dói, mas o silêncio acaba que por doer tudo o que me dói. Minhas dores nada secretas e que por vezes você as destaca sem saber – ou sabe.
Me calo para toda a eternidade até me dar passagem. Até eu poder dizer a intensidade de pensar que minha língua poderia achar o seu sorriso na boca. Como um balão, minha dor vai inflando pelo acúmulo de memórias e sujeiras. Vai acumulando até explodir e não existir. Veja, o balão é plástico, mas estoura – pode ou não levar tempo.
Pelo que vejo, e toda vez que penso nisso dou uma risada infantil, como agora, meu balão foi feito cientificamente para durar muito. A intensidade se intercala com o equilíbrio de saber da existência do teu sorriso; basta-me, pois, saber a existência dele para me lembrar da minha fechada risada infantil – basta-me a existência.
A criança nunca é falsa; mesmo ela querendo ela nunca é falsa. São espertas, desconfiadas, verdadeiras, risonhas... lindas, lindas. Aprendo mais com elas do que se eu pegasse um livro sobre psicologia moderna. Veja, eu te amo do jeito mais infantil possível: te amo desconfiada, te amo rindo, te amo com esperteza, te amo chorando, te amo vendo, te amo me calando... pra mim é muito lógico ser um sentimento verdadeiro – mas, já passei pelas estruturas da infância, posso desconfiar ainda mais disso. Não devia, mas desconfio. Como se eu estivesse adulterando a ordem dos fatos.
As crianças são mestres natos. Desconfio que todos os deuses de todas as religiões são crianças. Aposto que estaria rindo de mim ou por mim com esta citação boba. Mas, algo tão supremo, tão verdadeiro, tão justo, tão belo, tão humilde... deve ser uma criança.
Vejamos, Príncipe. Seres humanos do sexo masculino têm uma admiração pela delicadeza das mulheres. Delicadezas, estas, às vezes infantis: atos, expressões ou biotipos infantis. Sabe que se eu realmente acreditasse nisso, estaria feliz com algumas ofensas? Sim, posto que eu acharia uma ofensa me chamar de menina, medíocre ou babaca. Significaria para a sociedade, uma pessoa inconseqüente, não ciente dos atos. Se eu acreditasse neste pensamento discorrido estaria muito feliz. Veria, pois, que agradei e que não preciso esconder minha forma de ver a vida: infantil.
A vida é tão infantil no caminhar até a morte. A própria morte é infantil – esperta, desconhecida e verdadeira. A seqüência de fatos nos prende a infantilidade, sair dos problemas é sempre infantil – você sempre está alerta, esperto.
As crianças me ensinam a olhar de dentro pra fora e dar uma risada diante os problemas. São tão mestres, são tão lindas. Felizmente, me considerei uma criança – mas sinto-me dizer depois deste texto que não sou, queria realmente ser. Perdi um pouco da malícia do novo, da esperteza. Ficou tudo tão eficiente que eu não consigo rir diante do ato de te amar; é tão lindo e intenso o que sinto que merece uma gargalhada das boas! Aquelas lindas! Sabes? E se fluir de um quadro de pintura como tua boca, juntamente com o sorriso, seria graciosamente sublime.
É intenso e irracional tudo isso; como o começo da vida.
Sorria para mim que sorrirei para você, assim como a graça de sorrir diante uma criança linda.
2006